Atualização sobre o impacto do Covid-19 na Horticultura na Península Ibérica

Por Gabriel Motos Alves e Jaime Motos Ramos*

Inicialmente gostaríamos de dimensionar o setor da horticultura na Espanha, sendo que os principais produtos são: Tomate, pimentão, pepino, beringela, abobrinha, melão e melancia, com destino final para exportação aos países da União Europeia, sendo Alemanha(32%), França(16%), Reino Unido(12%) e Países Baixos(11%). Estes dados situam a Espanha como uns principais fornecedores de produtos hortícolas para o mercado europeu.

A superfície total de produção hortícola em estufas é de aproximadamente 41.000 hectares, sendo 31.500 em Almeria, 5.200 em Granada, 4.000 em Murcia, 1.000 em Alicante e o restante dividido nas outras províncias espanholas. Dados fornecidos por HortiEspaña.

A produção de hortifruti na Espanha representa 37% da Produção Final Agrária Espanhola (PFA), com um valor de produção equivalente aos 18 bilhões de Euros. O setor de produtos hortícolas supera 19,1% do PFA espanhol, alcançando o valor de 9,387 bilhões de euros, sendo o primeiro subsetor da agricultura espanhola.

Depois da nossa primeira contribuição, para o Boletim Informativo do mês de abril, ocorreram diversos acontecimentos no mercado de produtos hortícolas da Península Ibérica.

Inicialmente as empresas tiveram muitos problemas com a disponibilidade de mão de obra para as colheitas, já que a grande maioria utiliza mão de estrangeira, os conhecidos como “temporeros”.

Posteriormente este problema foi sendo solucionado, com a chegada destes trabalhadores e com a contratação de mão de obra local. Posteriormente, devido as medidas de confinamento e o fechamento de bares e restaurantes, ocorreu um aumento significativo de consumo nos lares de produtos frescos e de quarta gama, baby leaf,etc. Uma forte tendência que se está estabelecendo, também com a valorização dos produtos locais, conhecidos como Km zero.

Um estudo desenvolvido pelo governo espanhol e publicado no link da Moncloa, destaca o crescimento um forte crescimento do consumo: Carnes (+32,8%), batata e hortaliças frescas (+34,0%) e hortaliças e frutas processadas (+35,4€). Dados comparativos do primeiro semestre de 2020 e 2019. Moncloa

Também o FEPEX (Federação Espanhola de Associações de Produtores e Exportadores de Frutas, Hortaliças e Flores e Plantas), em uma publicação do mês de junho, demostra o aumento do consumo de hortaliças e frutas frescas, que se início nos meses de confinamento, com aumentos de 44% no consumo de hortaliças frescas e batatas no mês de abril e próximo aos 30% em algumas semanas de maio. Fepex

Em relação a evolução dos preços de produtos frescos, houve aumento significativo de preços, que superou a porcentagem de 6,9% em relação ao primeiro semestre do ano passado. No caso específico de hortaliças frescas, o aumento superou os 10% de aumento no varejo. Fonte INE – Espanha.  Fonte: La

 Vanguardia

Em Portugal, o índice de preços de produtos agrícolas no produtor, em abril de 2020, registou uma variação positiva significativa nos produtos hortícolas frescos (+20,1%), suínos (+11,9%), ovos (+9,4%) e plantas e flores (+0,5%), segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), no Boletim Mensal da Agricultura e Pescas – Maio de 2020. Fonte: msn

Devido ao elevado risco de contaminação dos trabalhadores, principalmente nos packing houses e nas instalações de beneficiamento e embalagem de produtos hortícolas, onde existe um componente de proximidade e também de ambiente fechado, isso levou as empresas agrárias, cooperativas e associações de produtores a estabelecerem uma série de medidas preventivas, para garantir a segurança e saúde dos profissionais.

No caso específico do MercaMadrid, o maior mercado abastecedor da península ibérica, foram estabelecidas uma série de medidas, que citamos a seguir:

Limpeza e desinfecção:

  • Ampliação da equipe de limpeza ao dobro do número normal de trabalhadores.
  • Instalação de 45 dispensadores de gel hidroalcóolico em todas as instalações do mercado.
  • Aumento de 700% no consumo de gel e sabões para a higiene dos visitantes e trabalhadores.
  • 8 limpezas diárias nas instalações sanitárias, durante os dias de mercado.
  • Desinfecção intensiva de todas os locais onde existe contato manual, como portas, fechaduras, elevadores etc.
  • Manter a distância obrigatória de 2 metros entre as pessoas.

Já a associação Proexport, que representa as principais empresas produtoras de frutas e hortaliças, estabeleceu um rígido protocolo de atuação, de aplicação tanto nas empresas produtoras, como nas de embalagem e processamento de hortaliças e frutas. Os principais parâmetros deste protocolo são:

  • Indicações de caráter geral, que devem ser informadas a todas as equipes de trabalho.
  • Medidas de higiene pessoal dos trabalhadores e protocolo a seguir, caso sejam detectados sintomas.
  • Medidas preventivas nos packing houses, escritórios e oficinas.
  • Medidas preventivas nas empresas de produção, tanto no campo como nas estufas.
  • Medidas de reforço de limpeza nas instalações e zonas de maior risco de contato.
  • Cuidados de saúde para trabalhadores mais vulneráveis.

Todo o protocolo pode ser consultado aqui neste link

Também se nota uma forte tendência de valorização, pelos consumidores, de produtos saudáveis, seguros e que os processos de produção respeitem o meio ambiente. Toda o debate que se abriu na sociedade, sobre aspectos de saúde pública, higiene, alimentação saudável etc., vem aumentando a consciência dos consumidores sobre a necessidade de serem muito seletivos no momento de escolherem e adquirirem os alimentos, principalmente quando se trata de produtos hortícolas.

Segundo uma pesquisa realizada pela Ecolavia, Associação Profissional Espanhola de Produção Ecológica, além do forte crescimento do consumo de frutas e hortaliças nos últimos meses, houve um aumento de 12% nas vendas de produtos ecológicos.

Como todos sabemos, em momentos de crise, surgem as oportunidades, logo devemos estar muito atentos as necessidades e exigências dos consumidores, que estão especialmente sensíveis a todos os assuntos relacionados com saúde, alimentação saudável e bem estar. Com certeza, as empresas e os profissionais que estejam sensíveis a estes temas e busquem a melhoria contínua, conseguirão atravessar esta crise e estarão mais fortalecidos no futuro.

 Gabriel Motos Alves e  Jaime Motos Ramos (PhD em Agronomia e responsável comercial da Fleurizon Ibérica y Brasil) são Consultores Internacionais em Horticultura Intensiva.

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